segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Direito ao FODA-SE!



O n√≠vel de stress de uma pessoa √© inversamente proporcional √† quantidade de “foda-se!” que ela fala”. Existe algo mais libert√°rio do que o conceito do “foda-se!”? O” foda-se!”aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor, reorganiza as coisas, me liberta. “N√£o quer sair comigo? Ent√£o foda-se!“.Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Ent√£o foda-se!” O direito ao “foda-se!”deveria estar assegurado na Constitui√ß√£o Federal”.
Os palavr√Ķes n√£o nasceram por acaso. S√£o recursos extremamente v√°lidos e criativos para prover nosso vocabul√°rio de express√Ķes que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genu√≠nos sentimentos. √Č o povo fazendo sua l√≠ngua. Como o Latim Vulgar, ser√° esse Portugu√™s Vulgar que ingar√° plenamente um dia. “Pra caralho”, por exemplo. Qual express√£o traduz melhor a id√©ia de muita quantidade do que “pra caralho”? Pra caralho” tende ao infinito, √© quase uma express√£o matem√°tica. A Via-L√°ctea tem estrelas pra caralho . O Sol √© quente pra caralho, o universo √© antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No g√™nero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta nega√ß√£o, est√° o famoso “Nem fodendo!” O “N√£o, n√£o e n√£o!” √© tampouco e nada eficaz e j√° em nenhuma credibilidade. O “Nem fodendo!” √© irretorqu√≠vel e liquida o assunto. Te libera, com a consci√™ncia tranq√ľila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? N√£o perca tempo nem paci√™ncia. Solte logo um definitivo: “Marquinhos, presta aten√ß√£o, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa, e voc√™ fecha os olhos e volta a curtir a sua musica.
Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu t√£o plenamente as situa√ß√Ķes onde nosso ego exigia n√£o s√≥ a defini√ß√£o de uma nega√ß√£o, mas tamb√©m o justo esc√°rnio contra descarados blefes, que hoje √© totalmente poss√≠vel imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota sen√£o com um “√© PHD porra nenhuma!”ou “ele redigiu aquele relat√≥rio sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como voc√™s podem ver, nos prov√™ sensa√ß√Ķes de incr√≠vel bem estar interior. √Č como se estiv√©ssemos fazendo a tardia e justa den√ļncia p√ļblica de um canalha. S√£o dessa mesma g√™nese os”aspone”,”chepone”,”repone” e mais recentemente o “prepone” – presidente de porra nenhuma.
H√° outros palavr√Ķes igualmente cl√°ssicos. Pense na sonoridade de um “Puta que pariu!”, ou seu correlato “Pu-ta-que-o-pa-riu!!!”, falados assim, cadenciadamente, s√≠laba por s√≠laba. Diante de uma not√≠cia irritante qualquer um “puta-que-o-pariu!” dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neur√īnios t√™m o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitir√° dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabe√ßa.
E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e refor√ßadora deriva√ß√£o “vai tomar no olho do seu cu!”. Voc√™ j√° imaginou o bem que algu√©m faz a si pr√≥prio e aos seus quando, passado o limite do suport√°vel, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!”. Pronto, voc√™ retomou as r√©deas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai √† rua, vento batendo na face, olhar firme, cabe√ßa erguida, um delicioso sorriso de vit√≥ria e renovado amor-√≠ntimo nos l√°bios.
E seria tremendamente injusto n√£o registrar aqui a express√£o de maior poder de defini√ß√£o do Portugu√™s Vulgar: “Fodeu!”. E sua deriva√ß√£o mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”. Voc√™ conhece defini√ß√£o mais exata, pungente e arrasadora para uma situa√ß√£o que atingiu o grau m√°ximo imagin√°vel de amea√ßadora complica√ß√£o? Express√£o, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando voc√™ est√° dirigindo b√™bado, sem documentos do carro e sem carteira de habilita√ß√£o e ouve uma sirene de pol√≠cia atr√°s de voc√™ mandando voc√™ parar: O que voc√™ fala? “Fodeu de vez!”.
“Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!!!”
Millor Fernandes

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