terça-feira, 27 de março de 2018

ETERNO - Por Pedro Barroso









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  • Quero que gostes de Pina Baush, ou até já nem gostes, 
    queiras mais queiras diferente; 
    que gostes da cor e do risco forte de Miró 
    e do canto desiludido e fundo de Ferré; 
    quero que aprecies os cheiros sensíveis da eternidade 
    do grande bruto grande e do pequeno sensível e pequeno; 
    quero que mores nas páginas da Photo e que, sendo um modelo de virtudes 
    representes a cortesã mais lassa para mim; 
    quero-te com mãos de pedra e de veludo; 
    quero que ames o chique e a Serra d´Aire 
    - mais o safari que a recepção, 
    quero que mores e sofras nas páginas de Guido Crepax 
    e que te irrites com a perfeição absoluta de um retrato de Medina 
    quero que, se possível vivas dentro do anúncio do Martini 
    felina e ondulante numa ilha tropical 
    quero que sejas capaz de divertir-te, de soltar uma ampla gargalhada, 
    ante o espectáculo ridículo e obsceno de um homem de Quinhentos 
    a quem atribuíssem um número de contribuinte 
    quero que ames o longe e a miragem, como o Régio 
    e que sejas louca e sábia 
    que tenhas lábios e mordas, 
    língua e sorvas, sexo e sexes, salto e salto, riso e rias, 
    sorvedouro inteiro de vida, arrepio de garça, sacudir de cisne, 
    passos de corsa, graça de arlequim, 
    pose de Diva, corpo de areia e luz. 
    E quero que me dês, me dês muito, que me dês tudo, 
    e que abras as janelas de par em par ao Tejo 
    e fecundes um poema em cada gesto 
    e voes como a gaivota em cada espreguiçar 
    e partas para a Índia em cada cacilheiro 
    e que sejas, mores, vivas e creias 
    longe 
    muito longe daqui... 
    
    quero que sejas profundamente minha e ritual 
    obsessiva e lúcida, doente, febril, tremendo de desejo 
    disposta a tudo e a mais e a muito mais, 
    boca de Mundo, seios de Mármore, corpo de Alfazema 
    e sobretudo Mulher e sobretudo amante. 
    Se existires assim, nua, inteira, absoluta e pessoal 
    responde-me 
    que eu fico aqui, eterno, à tua espera.

Pedro Barroso

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